Vale a pena pegar empréstimo para pagar dívidas? Quando a troca compensa
Trocar dívidas caras por um empréstimo mais barato pode economizar dinheiro, desde que o CET seja menor, o prazo não se estique demais e as dívidas antigas não voltem. Veja critérios e uma simulação de custo total.
Pegar empréstimo para pagar dívidas vale a pena quando o novo crédito tem custo efetivo total menor do que as dívidas que ele substitui, a parcela cabe no orçamento com folga e você não volta a usar os limites que acabou de liberar. Se uma dessas três condições falhar, a troca tende a apenas adiar o problema ou até aumentá-lo.
Essa estratégia é chamada de consolidação de dívidas: em vez de várias contas com juros altos e vencimentos espalhados, você fica com uma única parcela, de valor e prazo conhecidos. A seguir, os critérios para decidir, uma simulação com números e os erros mais comuns.
Quando o empréstimo para pagar dívidas compensa
Antes de contratar, responda a quatro perguntas.
1. O CET do novo empréstimo é menor?
Compare o Custo Efetivo Total de cada dívida atual com o CET da nova proposta, na mesma unidade (ao mês ou ao ano). Dívidas como o rotativo do cartão e o cheque especial costumam estar entre as mais caras do mercado, por isso são as primeiras candidatas à troca. Se o novo crédito não for claramente mais barato, não há ganho. Veja como ler esse indicador em o que é CET.
2. O custo total cai, e não só a parcela?
Uma parcela menor pode esconder um custo maior quando o prazo é muito esticado. O que importa é a soma de tudo o que você vai pagar até o fim.
3. A parcela cabe no orçamento?
A parcela única precisa caber com folga, considerando gastos fixos e imprevistos. O guia quanto posso pegar de empréstimo explica uma referência prudente de comprometimento da renda.
4. O comportamento que gerou a dívida mudou?
Se o cartão continuar sendo usado acima do que a renda suporta, em poucos meses haverá a dívida antiga de volta e o empréstimo novo por cima.
Simulação: custo total antes e depois
Os números abaixo são hipotéticos, apenas para ilustrar o raciocínio. Use as taxas reais das suas dívidas e das propostas que receber.
Situação: R$ 5.000 em dívidas caras, que seriam pagas em 12 parcelas a uma taxa de 8% ao mês. A proposta de consolidação tem CET de 4% ao mês. Cálculo pela tabela Price, sem considerar outros custos.
| Cenário | Parcela mensal | Total pago | Custo dos juros |
|---|---|---|---|
| Manter as dívidas a 8% ao mês em 12 meses | R$ 663,48 | R$ 7.961,70 | R$ 2.961,70 |
| Empréstimo a 4% ao mês em 12 meses | R$ 532,76 | R$ 6.393,13 | R$ 1.393,13 |
| Empréstimo a 4% ao mês em 24 meses | R$ 327,93 | R$ 7.870,42 | R$ 2.870,42 |
O que a tabela mostra:
- trocando a taxa e mantendo o prazo, a parcela cai e o custo total diminui em cerca de R$ 1.570;
- trocando a taxa e dobrando o prazo, a parcela fica bem mais leve, mas o total pago volta para perto do cenário original. A economia praticamente desaparece.
Esticar o prazo pode ser necessário quando a parcela não cabe de jeito nenhum, mas faça isso consciente do custo. Lembre também que a proposta real pode incluir IOF e tarifas, que entram no CET e reduzem a vantagem. Se as dívidas atuais já estão perto do fim, a troca pode não compensar: boa parte dos juros já foi paga, e o que resta do saldo é principalmente o valor emprestado. Teste combinações de valor, taxa e prazo no simulador de empréstimo.
Qual modalidade usar para consolidar
- Consignado: quando disponível, costuma ter taxas menores, com desconto direto na folha ou no benefício. Reduz a flexibilidade do orçamento, já que a parcela sai antes de o dinheiro chegar à sua conta. Só está disponível para quem tem vínculo que permite o desconto, como aposentados, pensionistas, servidores e trabalhadores com carteira assinada, conforme as regras vigentes.
- Com garantia de bem: taxas geralmente mais baixas, mas o veículo ou imóvel fica em risco em caso de inadimplência. Use com muita cautela para pagar dívidas sem garantia.
- Pessoal sem garantia: mais simples e rápido, porém mais caro. Pode compensar quando substitui rotativo de cartão ou cheque especial.
- Renegociação direta: antes de pegar crédito novo, pergunte aos credores atuais se oferecem desconto para quitação à vista ou parcelamento com juros menores. Às vezes resolve sem empréstimo.
Para o caso específico da fatura, compare as opções no guia empréstimo ou cartão de crédito.
Como fazer a troca na prática
- Liste todas as dívidas: credor, saldo devedor atualizado, taxa, CET e parcelas restantes.
- Peça o valor de quitação de cada uma. Na quitação antecipada de contratos de crédito, os juros futuros devem ser abatidos proporcionalmente.
- Solicite propostas em mais de uma instituição e compare pelo CET e pelo custo total.
- Contrate apenas o necessário para quitar as dívidas escolhidas. Pegar um valor maior "para sobrar" aumenta o custo.
- Quite as dívidas logo após receber o dinheiro e guarde os comprovantes de quitação.
- Reduza ou cancele os limites de cartão e cheque especial que motivaram o endividamento, se não conseguir controlá-los.
Nenhuma instituição legítima exige pagamento adiantado para liberar um crédito de consolidação. Pedidos de taxa, depósito ou "seguro" antes da liberação são indício claro de golpe: interrompa o contato.
Erros que levam ao superendividamento
- Olhar só a parcela. Uma parcela confortável com prazo longo pode sair mais cara que as dívidas originais.
- Voltar a usar os limites liberados. É o erro mais comum e transforma uma dívida em duas.
- Consolidar dívidas baratas em um crédito caro. Financiamentos com taxas baixas raramente devem entrar na troca.
- Dar bem em garantia sem margem no orçamento. Um imprevisto pode custar o carro ou a casa.
- Encadear empréstimos. Pegar um crédito para pagar a parcela de outro é sinal de que o orçamento não fecha e de que é hora de buscar ajuda.
Se você já não consegue pagar as contas básicas e as dívidas ao mesmo tempo, a Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021) prevê um processo de repactuação conjunta das dívidas de consumo, que pode ser iniciado na Justiça ou em órgãos de defesa do consumidor. O guia como renegociar dívidas traz o caminho completo.